Vodka Lemon (2003)












Bom, muito bom.
No início lembrei-me de Kusturica e de Khudojnazarov. Sim, as semelhanças estão lá. O cinema peculiar e alegórico destes dois senhores está presente nesta obra. Mas essa semelhança é escassa. É diferente, menos hilariante, menos burlesca e mais poética, duma poesia romanesca mas contudo real, crítica da sociedade, das contrariedades da vida. É essencialmente belo, duma beleza ímpar, duma beleza que resulta duma fotografia espectacular e duma narrativa linear. E depois lembrei-me de Ceylan, talvez por toda a neve que está presente desde o início ao fim, mas também pela poesia e liberdade narrativa que mostra. E mais, às tantas veio-me à cabeça “Zemestan” do Rafi Pitts. A mesma neve, o mesmo tema social, o caos, a miséria, a luta pela sobrevivência. Sim, são filmes distintos. “Vodka Lemon” destaca-se na sua peculiaridade, no seu estilo que pende para todos estes de que falo mas que foge. E “Luna Papa” talvez seja o mais próximo, visualmente. Sem pensar na neve. Mas afasta-se depois na linguagem kusturicana que assume. E finalmente pensando bem, este cinema de Saleem faz lembrar o finlandês Aki Kaurismaki com toda a sua narrativa fria e absurda. Falo das relações pessoais que são criadas, como a aproximação de Hamo a Nina, ou a conquista da neta de Hamo pelo filho de Romik. E essa frieza humana aliada à frieza climática com toda a neve fez-me lembrar o finlandês. Até porque é um filme desolador, que pretende reflectir numa Arménia pós-Soviética. E engraçado é constatar que Saleem explora as fraquezas do capitalismo e condena-o mais do que ao comunismo. A certa altura, Hamo diz que estavam melhor no regime soviético, ao que outro lhe responde que não porque era uma ditadura. Mas Hamo não se convence e continua dizendo que isso não importa porque tinham melhor vida, menos miséria, mais dinheiro. E a verdade é que Hamo não deixa de ter razão, a verdade é que o capitalismo ainda piorou as coisas. Lembrei-me de Bartas, da sua constante procura na temática social e política do pós-comunismo, na sua exploração visual da miséria. Mas Bartas é outro cinema, completamente diferente. Nada tem a ver com este Saleem. Até porque “Vodka Lemon” tem momentos cómicos, ponderados é certo, mas estão lá. E é absurdo com todo o seu patriotismo, desde a cena em que o filho de Hamo compra uma garrafa de vodka limão (numa barraca que dá pelo mesmo nome e que dá o título ao filme) e pergunta a Nina (a empregada) o porque de se chamar vodka limão se sabia a amêndoas, ao qual ela responde “É a Arménia”; desde o casamento da neta de Hamo onde um ritual estranho é feito; até ao tiro que o filho de Hamo dá ao recém-genro.
“Vodka Lemon” é um filme belo, poético, com uma interpretação fabulosa de Romen Avinian no papel de Hamo, com uma realização competente e uma fotografia lindíssima.



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